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Psicometria

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Embora os primeiros testes de inteligência tenham sido utilizados na China no século V d.C., somente a partir do princípio do século XX passaram a ser usados com rigor científico nas clínicas de Psicologia. Na verdade, antes, Francis Galton, inspirado na Teoria Evolucionista de seu meio-primo, Charles Darwin, tentou elaborar os primeiros testes com o objetivo de medir o intelecto humano. Era adepto da eugenia e acreditava que a inteligência era herdada hereditariamente. Seus testes mostraram-se inapropriados, por exemplo, utilizava um apito para mensurar a intensidade de que um indivíduo seria capaz de ouvir, isto é, como mais percepção do volume do som e mais rapidez no tempo de reação da resposta mais inteligente era o sujeito. Acreditava que toda informação seria interiorizada por meio dos sentidos, quanto mais sensível fosse o aparelho perceptivo mais hábil seria, neste sentido a inteligência era oriunda das percepções sensoriais. Outro grande fiasco de Galton foi afirmar que pessoas com crânios maiores são mais inteligentes. Em 1884 aplicou uma série de testes em nove mil voluntários para medir variáveis como tamanho de crânio, tempo de reação, acuidade sensorial e memória para formas visuais; entretanto, os testes não demonstraram nenhuma diferença entre a cabeça de pessoas comuns e de cientistas ingleses. Talvez o seu maior legado fosse ter empregado pioneiramente a estatística e o coeficiente de correlação em suas pesquisas, mas foram as próprias correlações estatísticas que derrubaram a eficácia de seus testes; pois, James McKeen Cattell, psicólogo da Universidade de Colúmbia que fortaleceu a Psicologia americana da época realizando importantes estudos de Psicometria, resolveu comparar as notas das crianças testadas por Galton para constatar a validade dos testes, mas não encontrou nenhuma correlação entre os testes e as notas. (GARDNER, 1998, p. 56-59-60) (HILGARD, 2007, p.453)

De fato podemos considerar que os primeiros testes ocidentais válidos cientificamente foram criados em 1904 e publicados no ano subsequente pelos psicólogos franceses Alfred Binet e Théodore Simon, como foi visto no capítulo I, no estudo das obras interacionistas de Jean Piaget e Lev Semionovich Vygotsky. Só para relembrar é importante distinguir que Binet e Simon se preocupavam com o produto dos testes para diagnosticar crianças com atraso na aprendizagem, enquanto Piaget e Vygotsky dirigiram suas pesquisas para os processos mentais que levava o indivíduo a fornecer respostas erradas em testes, este processo seria mais fácil para os docentes pensar em estratégias metodológicas de ensino.

Em 1881 o governo francês pretendia universalizar o acesso às escolas, por isso sancionou uma lei que tornava obrigatório o ensino para todas as crianças, inclusive as que tinham problemas de aprendizagem. Binet e Simon foram incumbidos pelo ministro de Educação da França para procurar uma solução e começaram a procurar um método eficaz, dinâmico sucinto e objetivo em que pudessem realizar exames precisos das deficiências intelectuais (Não apreciamos a expressão “deficiências mentais” por ter adquirido atualmente uma nuança pejorativa em nossa sociedade) de crianças nas escolas. Então elaboraram testes vocabulários que, a princípio, estimavam os níveis mentais num escopo em que se relacionava a idade cronológica e o desempenho em testes indicados a outras faixas etárias, por exemplo, caso uma criança com idade de dez anos possuísse desempenho igual à média das crianças de oito anos, segundo os testes ela teria idade mental de oito anos. Desta maneira, tornou-se admissível mensurar se a criança era adiantada ou atrasada na aprendizagem. Isto, de acordo com os psicometristas franceses, poderia possibilitar uma educação apropriada ao ritmo e à dificuldade de aprendizado de cada criança. Este intento em nossa concepção mostrou-se falho, já que as crianças possuem facilidades em algumas disciplinas e dificuldades em outras, pois consideramos que, mesmo os testes psicológicos mais recentes, aferem apenas habilidades matemáticas, linguísticas e espaciais; portanto, os testes serão úteis somente para estas disciplinas, deixando uma enorme lacuna quanto às habilidades criativas, práticas e socioemocionais e, além do mais, os testes parecem ter uma forte correlação somente com o desempenho escolar, talvez pelo fato da maioria das disciplinas estudadas nas escolas serem de cunho científico, ou seja, baseados em padrões lógicos e sistematizados; entretanto, não demonstram a mesma correlação com o sucesso profissional, principalmente se o indivíduo estiver em uma condição estressante.

A expressão “QI” (Quociente de Inteligência) é atribuída ao psicólogo alemão Wilhelm Stern em 1912, que transformou a proposta de Binet e Simon numa expressão numérica por meio de uma operação aritmética simples, em que se dividia a idade ou nível mental pela idade cronológica e multiplicava por cem (IM/IC x 100) para eliminar as discrepâncias que encontrou. Stern considerava os sistemas de idade mental adequados para confrontar somente crianças da mesma idade cronológica; todavia, notou que disparidades similares entre idades cronológicas e mentais tinham implicações distintas para crianças de diferentes idades cronológicas, por exemplo, uma criança de doze anos que possui idade mental de dez anos, possivelmente não teria muita dificuldade na aprendizagem em relação a uma criança de cinco anos com idade mental de três.

Com isso, sugeriu a utilização de sua fórmula para demonstrar um QI que realmente apresenta as dificuldades de aprendizagem para os dois exemplos citados no último parágrafo, por exemplo, a criança funcionando em uma idade mental igual à cronológica teria um QI de 100; entretanto, a criança de doze anos com idade mental de dez teria um QI de 83, muito pouco abaixo da média “100”. Já a criança de cinco anos com idade mental de três anos teria um QI de 60”, ou seja, uma grande diferença em relação à média “100”. (GARDNER, 1998, 63-64)

Seguindo a sugestão de Stern , Lewis Madison Terman, psicólogo americano da Universidade de Stanford, foi quem disseminou e utilizou em larga escala a fórmula, que perdurou por anos e ainda é utilizada em algumas clínicas de Psicologia. Vamos a mais exemplos para um melhor entendimento da fórmula: QI = 100 x IM/IC, em que IM = idade mental e IC = idade cronológica, uma criança de dez anos com idade mental de oito teria QI 80, sugerindo um atraso sutil analogamente à média das crianças de mesma idade, enquanto uma criança com dez anos e idade mental de doze teria QI 120, indicando um adiantamento também sutil em relação à média das crianças de sua idade.

Em 1916, Terman revisou a escala de Binet e Simon, que passou a ser chamada de Escala Stanford-Binet, esta também foi revisada em 1937, 1960, 1972 e 1986. Terman, ainda, padronizou a administração dos testes os quais foram aplicados a milhares de crianças de várias idades. A partir deste momento os testes tornaram-se o maior sucesso e foram aplicados para seleção de soldados na Segunda Guerra Mundial, os guerreiros recebiam as funções conforme o desempenho nos testes de QI. Os testes, também, passaram a ser utilizados em empresas e nas universidades, aliás, são usados até hoje nos Estados Unidos para o ingresso em cursos superiores, por meio do SAT (School Avaliacion Teste), uma espécie de teste de QI disfarçado. No Brasil, o novo ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) parece seguir a mesma tendência. Assim como Galton Terman também defendeu a eugenia e participou de uma fundação destinada a melhorar o ser humana, algo que pode ser muito perigoso; pois envolveria questões sociais, um exemplo é a tentativa contemporânea de inventar uma pílula capaz de potencializar a inteligência humana. Quem poderia comprá-la? Se os pobres não tem condição ficarão mais marginalizados.

2. Classificação de Lewis Terman

QI acima de 140: Genialidade

120-140: Inteligência muito superior

110-120: Inteligência superior

90-110: Inteligência normal (ou média)

80-90: Embotamento

70-80: Limítrofe

50-70: Cretino

20-50: Imbecil

QI abaixo de 20: Idiota

Wilhelm Stern afirmou que uma criança com cinco anos e idade mental de dez anos teria QI 200 e outra criança com sete anos e idade mental de quatorze também teria QI 200. Aparentemente parecia que tanto a criança de cinco anos quanto a de sete provavelmente teriam um QI de 200 quando ficassem adultas. Terman e a maioria dos pesquisadores de Psicometria da época seguiram a proposta de Stern; mas, quando essas crianças se tornaram adultas, aquela que tinha o QI de 200 aos sete anos tende a se tornar um adulto com QI de aproximadamente 160, enquanto aquela que possuía QI de 200 aos cinco anos tende a ter um QI de 145 ao se tornar adulto. Isto é uma grande falha, já que a invariabilidade do QI é uma propriedade extremamente relevante. O próprio Terman ratificou esta distorção por meio de uma pesquisa realizada por cerca de trinta anos com um grupo de mil quinhentos e vinte e oito crianças com QIs acima de 130. Encontrou crianças com QIs acima de 200 num patamar dez mil vezes superior do que se aguardava em uma população adulta. A incidência era maior à proporção que as crianças fossem mais jovens, assim, comprovando que havia algum equívoco com o método adotado para determinar o QI. Os testes de até então mensuravam bem o QI de crianças, mas não serviam para serem aplicados em adultos. Desta forma, a fórmula (QI=IM/ICx100) foi substituído pelo QI em função da raridade. (MELÃO, 2005, Sigma Society).

David Wechsler, psicólogo americano de origem romena, foi quem propôs a mudança dos testes para um sistema baseado em desvio-padrão que se tornou vantajoso pelo fato QI das pessoas ficar quase inalterado por toda a vida. A partir de 1940 seus testes passaram a ser amplamente empregados na Psicologia. Na Escala de Wechsler, se um sujeito possuir um QI de 100, está acima de 50% da população e abaixo dos outros 50%, ou seja, possui um QI mediano, que é definido pelo número “100”. Caso um indivíduo possua um QI de 115, está entre os 16% que estão acima da média. Com este novo paradigma, o QI do indivíduo é comparado ao restante da população, a cada 15 pontos nas respostas corretas dos testes, o sujeito possui 01 ponto de dispersão abaixo ou acima da média “100”. Quem tem um QI de 115, como foi visto, está 01 ponto de dispersão acima da média e quem tem um QI de 85 está um ponto de dispersão abaixo da média. Há outros testes com diferentes desvios-padrão: Escala Cattel, o desvio é 24, a Escala das Matrizes Progressiva de Raven é de 15; enquanto na Stanford Binet, que também passou a usar escore a partir da última revisão em 1986 é de 16. Abaixo seguem duas tabelas, uma com os três desvios-padrão e outra com o desvio-padrão 15 das Escalas de Wechsler e das Matrizes Progressivas de Raven, onde há a relação do QI sujeito com o percentil em que se encontra na população:

Todas as escalas passaram por várias revisões, mas ainda se apoiam na proposta de Wechsler. Atualmente, há dezenas de testes psicométricos, uns que medem características emocionais, sociais, práticas, grupais outros que foram corrigidos para mensurar pessoas de alto QI como os testes utilizados para ingressar em algumas sociedades que admitem somente pessoas que se enquadrem entre os 2% dos QIs mais altos (QI de 130 nas Escalas Wechsler e Raven; QI de 148 na Escala de Cattell e QI de 132 na Escala Stanford-Binet). Em 1946 foi fundada a Mensa que se tornou famosa e teve como membro o renomado escritor de ficção científica Isaac Asimov que, aliás, abandonou-a argumentando que havia muitas pessoas arrogantes e vaidosas na entidade. Mais recentemente surgiram outras sociedades de alto QI: Sigma Society, Giga Society, Pars, Olympiq e Mega Society. (MELÃO, 2005, Sigma Society).

3. Classificação proposta por David Wechsler

QI>150 : Gênio

QI acima de 127: Superdotação

120-127: Inteligência Superior

110-120: Inteligência Acima da média

90-110: Inteligência Média

80-90: Embotamento Ligeiro

65-80: Limítrofe

50-65: Debilidade Ligeira

35-50: Debilidade Moderada

20-35: Debilidade Severa

QI abaixo de 20: Debilidade Profunda

Os diferentes testes, de acordo com os psicometristas, não são igualmente úteis para todos os propósitos, por exemplo, as Escalas de Wechsler tem uma forte correlação com o desempenho acadêmico, enquanto os testes das Escalas das Matrizes Progressivas de Raven (Identificação de padrões em que a pessoa manipula mentalmente figuras geométricas) conseguem eliminar um pouco da influência da cultura. Não há um teste melhor do que o outro, mas cada um serve para diferentes finalidades. Os testes geralmente aferem habilidades como memória visual, raciocínio numérico, raciocínio verbal, sequências lógicas, padrão de movimentos de objetos e capacidade de solucionar problemas do cotidiano. (GARDNER, 1998, p.97) (GARDNER, 2001, p.23)

As pesquisas realizadas por Charles Spearman, um engenheiro inglês que se tornou um psicólogo entusiasmado com os estudos de Galton, eram baseadas em coeficiente de correlação. Spearman foi criador da expressão fator “g” que segundo ele era a chave da inteligência, uma espécie de “entidade” global que coordenava todas as habilidades nos seres humano. Não entraremos em maiores detalhes porque pretendemos retomar esta teoria no Capítulo III, confrontando-a com a Teoria das Inteligências Múltiplas de Howard Gardner da qual somos adeptos.

Antes, porém, discutiremos um tema extremamente polêmico que foi publicado no livro A Curva do Sino de Charles Murray e Richard Herrnstein publicado em 1984. A afirmação dos autores de que os negros são menos inteligentes respaldando-se nos resultados dos testes de QI, foi um ato extremamente preconceituoso, já que a pesquisa desconsiderou o processo histórico-cultural em que o negro foi vítima em diversas partes do mundo, inclusive nos Estados Unidos. No Brasil, por exemplo, o brilhante escritor Machado de Assis, já previra o futuro dos negros no belo em “Bons Dias”, narrando a história de Pancrácio, um escravo recém-libertado que foi contratado pelo seu próprio dono, aos poucos começou a levar pontapés e socos na cabeça, Pancrácio nem reagia, pois estava acostumado com o tratamento de quando era escravo. Assim, ocorreu com a maioria dos escravos, foi libertado, mas continuou a receber o mesmo tratamento de antes quando foi contratado ou ficou desempregado, empurrado para a periferia em plena formação das grandes cidades. Sem oportunidade de emprego e, consequentemente, de estudo é possível dizer que o negro é menos inteligente do que o branco baseando-se num mero teste? Mesmo que fosse não se deveria ter a mínima importância. Manifestamos todo o nosso interesse em explorar o conhecimento sobre a mente humana, todavia, rejeitamos toda e qualquer pesquisa tendenciosa, preconceituosa e sem ética. Mesmo divergência no uso da teoria psicometrista, deve-se respeitar os profissionais que se preocupam em utilizá-la em benefício da aprendizagem de crianças especiais

Para provocar reflexão, levantaremos a seguinte hipótese, se soltássemos várias pessoas de alto QI na selva amazônica somente com a roupa do corpo e outro grupo com indivíduos que possuam QI médio nas mesmas condições do primeiro grupo. Qual grupo conseguiria encontrar primeiramente a solução para o devido salvamento, sem que ninguém morresse? Os de QIs normais ou de QIs altos? É claro que cientistas sérios jamais fariam uma pesquisa tão cruel, por isso não temos registro científico de qual grupo se salvaria primeiro, assim, podemos apenas pensar teoricamente em uma solução, no entanto, tal tarefa será deixada por conta do nobre leitor, mas é bem provável que diante de certas condições, a determinação, a coragem, a perseverança, o bom humor, o ânimo e, sobretudo a vontade de viver sobressairá na busca pelo salvamento de cada membro do grupo e, neste caso, presumimos que ter o QI acima ou abaixo da média não importa muito. Talvez no sucesso profissional ocorra algo semelhante, neste caso o maior desafio é superar as más condições sociais em que muitas pessoas nascem para alcançar êxito. Uma situação similar e real ocorreu com os recrutas selecionados através dos escores de QI na Segunda Guerra Mundial, os soldados de QI alto na prática não demonstravam vantagens significativas sobre os QIs medianos.

Galton, Terman e mais recentemente Murray e Herrnstein defenderam ardorosamente que a inteligência é hereditária e quase nada pode ser feito para alterá-la, esquentando a velha dicotomia iniciada pelos filósofos. Embora estudos com gêmeos demonstrem um forte componente genético na inteligência, não é suficiente para afirmar que a inteligência não possa ser melhorada por meio de apropriação dos conhecimentos historicamente acumulados exercícios mentais. Discutiremos esta questão com mais profundidade no próximo Capítulo.

Veja a seguir algumas questões parecidas com as aplicadas em teste de QI. Devemos ter em mente que só os psicólogos podem aplicar testes psicométricos. Temos observado muitos educadores aplicando testes retirados da internet para alunos; além de consistir em falta de ética, não traz nenhum benefício aos alunos, além do mais os testes virtuais não são fidedignos. Isto não significa que não possa propor questões isoladas, em forma de jogos lúdicos para desenvolver as habilidades lógicas, como as atividades do último Capítulo.

 

Referência Bibliográficas

MELÃO, Hindemburg Jr. Site Sigma Society

GARDNER, Howard- Inteligência: Múltiplas Pespectivas

GARDNER, Howard- Inteligência: Um Conceito Reformulado

Google Imagem

Observação: Este texto pode ser melhorado, por isso, peço aos leitores que escrevam criticando e apontando possíveis falhas.

Vandenei Dogado

 

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