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Medicina e Saúde

OS BAIANOS: Aline, sempre a um passo apenas do paraíso

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Será de manhã quando você se deparar com a jovem que corre de muletas na orla. Será uma nova manhã. Ela, que se locomove em um balé cibernético, onde os braços ganham extensões até o chão, vigas móveis, apoiando e impulsionando adiante. Será manhã naquele trecho entre Itapuã e Piatã e você será mais um na plateia informal impressionada, pode interromper a própria corrida em homenagem, ou dar uma buzinada de incentivo.

Como se Aline Melo, 21 anos, precisasse de algum estímulo externo. Seu ritmo é apoiado em duas muletas cor de rosa chumbo e em obstinação. E você aí, pela metade, reclamando que hoje não dá, que os músculos estão cansados, que está frio demais ou calor demais. Aline é daquelas miragens desconcertantes, como seu Arioste, que surgem na orla de Salvador, essa cidade que tem sabor de pão dormido molhado em azeite de poesia.

- Posso fazer uma entrevista?

- Não sei muito falar.

Mas aí mesmo, com inabalável sorriso, já vai contando que mora no Jardim das Margaridas, um bairro próximo ao aeroporto de Salvador, dividindo a casa com uma tia. Saiu de Paulo Afonso, um ano atrás, atraída pela proposta de trabalho em um escritório de material de construção. “Estou muito feliz, me sinto em casa”. Encantou-se com a praia, com o Farol da Barra, com o Elevador Lacerda, com o Mercado Modelo. Aos fins de semana, encanta-se também com o shopping center.

Não é atleta, não visa paralimpíadas, é apenas prodígio da força de vontade, lição da natureza. Ela não pode conjugar para si mesmo membros inferiores no plural, mas vai caminhando, em passos únicos, numa altivez superior. Fone no ouvido, roupa de academia, cabelo preso, nada falta no visual de Aline Melo. O que sobra é sua exaltação diante do mar. “Essa orla é linda demais”, exclama, sábado sim, sábado não, ou feriados, quando não precisa trabalhar. É de fazer pensar se uma jovem assim, tão real quanto improvável, chegaria a musa inspiradora de Chico Buarque.

- Você se considera um exemplo?

- É o que as pessoas costumam dizer, responde, em um tom quase envergonhado de quem não quer assumir fantasia de heroína.

Nessa Salvador, a capital exuberante, que mais impressiona do que choca, não há políticas públicas para nada e para nada, ela passa por cima, aos saltos, de uma calçada desnivelada, esburacada, torta, como a vida costuma ser. Olhares oblíquos vão fitando a jovem, são olhos que pertencem a corpos com potencial amputado pela mediocridade, vidas pererês que vão errando bípedes por aí sem direção. No caso dela, seguir adiante é também uma questão de equilíbrio.

Desnecessário é detalhar como ela teve a perna direita arrancada aos dois anos de idade em um acidente com ônibus cujos detalhes ela nem precisou de muito esforço para esquecer. Isso está no passado. No futuro, o sonho dela, que terminou o ensino médio, é passar em um concurso, qualquer que seja. Sem ser Alice, Aline considera que o país das maravilhas seria aquele em que fosse servidora pública da área administrativa de alguma estatal ou autarquia.

- Posso tirar umas fotos?

- Só se ficar bonita, responde, buscando os melhores ângulos e sorrisos.

Mesmo em feriado, o mundo passa com pressa por Aline, em duas pernas, em duas ou quatro rodas. Mas vá procurar naqueles céleres o mesmo riso fino e perene no canto de boca. A satisfação suave de ver a praia pela primeira vez, mesmo que já seja a centésima.

Aline Melo é inteira em felicidade e encantamento pela orla, pelo mar, que é esse inconsciente coletivo em forma líquida. E você aí, reclamando que hoje acordou cansado, que está atrasado demais para coisa alguma, fazendo um glossário de “mas” e “se” só com o objetivo de se boicotar. E eu aqui, procurando o que falta, um sentimento que sirva, qualquer coisa que se sinta.

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